Lê-se: Relato de um náufrago – Gabriel García Marquez

 A história da história

Gabriel Garcia Marquez, então repórter do jornal bogotano El Espectador, não esperava que ainda no início da sua carreira jornalística, em 1955, a história do único marinheiro sobrevivente do naufrágio do destróier Caldas, da Marinha de Guerra Colombiana, mudaria sua vida e causaria no país um grande alvoroço. Luís Alexandre Velasco, de apenas vinte anos, procurou voluntariamente a redação do jornal, após um mês do acidente, para registrar as memórias de dez dias à deriva no mar do Caribe em uma balsa. A impressionante capacidade de narrar os fatos do marinheiro fez com que Gabo se prontificasse a escrever a história.

O relato foi divido em capítulos e publicado em catorze edições do diário bogotano em uma coluna denominada “A verdade sobre minha aventura”. Foram necessárias 20 sessões de conversa, divididas em encontros de 6 horas diárias, durante as quais o repórter, posteriormente autor literário, fazia perguntas traiçoeiras para detectar as contradições de Velasco.

O resultado foi uma narrativa detalhada dos acontecimentos escrita em primeira pessoa e assinada pelo náufrago. A verdade, nunca publicada até então, revelava que o motivo do naufrágio não foi uma tormenta, mas o transporte de carga contrabandeada dos EUA em direção a Cartagena. O excesso de peso das geladeiras, máquinas de lavar e rádios que, com o mar agitado, fizeram o destróier tombar, a carga soltar-se e levar consigo oito tripulantes. Júlio Amador Caraballo, Miguel Ortega, Eduardo Castillo, Luís Rengifo, Ramón Herrera, Jaime Martínez Diago, Elias Sabogal e Luís Alexandre Velasco foram lançados ao mar. Somente o último sobreviveu. 

A Colômbia vivia naquela época sob a ditadura militar do general Gustavo Rojas Pinilla, e o único sobrevivente, quando encontrado, foi praticamente sequestrado pelas autoridades colombianas e impedido de falar sobre o ocorrido, a não ser para jornalistas ligados ao regime militar. A versão à serviço do marketing político divulgada pelos meios de comunicação estatais promoveu a ascensão de um herói nacional que fez discursos patrióticos através do rádio e da televisão. Além da publicidade pessoal da imagem do náufrago, que faturou popularidade e uma pequena fortuna.

A série de reportagens da aventura no El Espectador transformou-se em denúncia política. Quando o governo desmentiu a carga no destróier, o jornal comprou fotos dos marinheiros que não caíram no mar que comprovavam a carga de contrabando. Luís Alexandre Velasco resistiu às pressões e rejeitou subornos do governo. Não mudou sequer uma linha de seu relato. Ele, que tinha sido promovido a Cadete no auge da sua popularidade, foi expulso da marinha, único trabalho que sabia fazer, e fadado ao esquecimento. Um herói nacional que abriu mão da glória pelo direito da contar a sua própria versão dos fatos. Gabriel García Marquez foi exilado em Paris e o jornal El Espectador foi fechado após uma série de represálias do governo.

Somente após 15 anos, o autor compila o relato do náufrago em livro, e seu nome pela primeira vez vem associado ao texto. O convite, embora aceito, não lhe agradou muito, conforme revela na introdução do Relato de um náufrago (Editora Record, 1993, 17.ª Ed., 134 páginas): “Causa-se depressão a ideia de que aos editores não interessa tanto o mérito do texto como o nome que o assina, que, para desgosto meu, é o de um escritor da moda.” 

Escritor da moda ou não, García Marquez consegue, com habilidade, tornar os elementos da natureza e os sentimentos mais abstratos e oníricos em personagens na construção da narrativa literária. De acordo com o ex-marinheiro, sempre que seu ânimo diminuía, algo acontecia para refazer suas esperanças. Foram dez dias enfrentando fome, sede, sol, solidão e os perigos do mar. Ainda assim, era mais difícil morrer do que permanecer vivo.

 “Relato de um náufrago: que esteve dez dias à deriva numa balsa, sem comer nem beber, que foi proclamado herói da pátria, beijado pelas rainhas da beleza, enriquecido pela publicidade, e logo abandonado pelo governo e esquecido para sempre”

– Gabriel García Marquez

Onde comprar: Relato de um náufrago na Estante Virtual 

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