Feminismo ou barbárie

Um sentimento coletivo de impotência, silêncio, cansaço, abismo e radicalização. Há muito tempo a gente não se sente segura mas essa semana o cerco fechou de vez. O clima é pesado e insustentável. Uma amiga foi perseguida ontem voltando da minha casa depois de um dia inteiro compartilhando reflexões sobre a vida, o universo e a nossa condição real de ser mulher e estar encurralada pela cultura do estupro.

Na medida do possível e fora o susto, a revolta, a indignação e a conjuntura que não está nada favorável, nosso maior desafio ainda é sobreviver apesar das sequelas e da raiva que a gente passa todo dia. Ela agiu certo, certíssima, parou a bike em um bar movimentado e bateu de frente com o cara que saiu com o rabo entre as pernas. Ligou pra gente e foi acompanhada até em casa. Tenho muito orgulho da coragem e do enfrentamento das minhas companheiras de luta.

Apesar de necessária, a atitude nem sempre é possível e principalmente segura. Por isso não pode ser cobrada das mulheres como uma obrigação. É injusto e cruel. Um segundo e você perde a vida, é agredida, julgada, sai de louca. O que fazer? Quando o estuprador sai rindo e de cabeça erguida da mesma delegacia que a vítima acabou de prestar depoimento pela terceira vez. A certeza da impunidade. Uma mulher armada – de fuzil, argumentos, coragem ou spray de pimenta – é sempre uma inspiração.

Já somos 13 mulheres mortas por dia no Brasil por crimes de gênero, a maioria negras, trabalhadoras. São tempos difíceis de estupros coletivos, corretivos, suicídios, depressões, crises de pânico e tarja preta. Quem inventou a violência foram os homens, nós transformamos a raiva em luta contra qualquer um que ameaçar nossa liberdade. Por um projeto político de emancipação radical, feminismo ou barbárie. O que fazer?

22C5W9AsGc22ElEhFNGaZhFdi7C

 

 

DOCUMENTÁRIO 
She’s beatiful when she’s angry

FOTOGRAFIA
“Os meios de comunicação de massas fazem caricatura da luta destas mulheres como uma fantasia sexy ocidental e capitalista, mas a verdade é que estas mulheres estão a liderar uma luta radical que pode desafiar o status quo para além do estado de sítio imposto pelo EI.” Dilar Dirik é ativista no Movimento de Mulheres Curdas e pesquisadora sobre o Curdistão e o movimento de mulheres. LEIA +

Nossa liberdade não será dada

Viajar sozinha não é uma liberdade garantida das mulheres. Se você é jovem e quer conhecer a América do Sul, por exemplo, pode acabar como as duas mochileiras argentinas no Equador. Em março desse ano elas foram assassinadas por dois homens. Uma morreu com um golpe na cabeça e a outra a facadas depois de uma tentativa de abuso. Nem a companhia de uma amiga pode te safar de um maluco que atravessa a rua e te agarra de madrugada. Ou de outro que mexe com você por causa do tamanho do seu short, do decote, uma tatuagem ou o mindinho do pé.

g1

ATENÇÃO comentário com teor cancerígeno do G1

A morte dessas meninas  – Maria José Coni, de 22 anos, e Marina Menegazzo, de 21 – me deu ainda mais certeza do quanto estamos largadas a nossa própria sorte. A jornalista do El Espectador, Catalina Ruiz Navarro, escreveu na época uma coluna que define bem a nossa situação: “por segurança, as mulheres terminam confinadas aos espaços privados, onde, para horror maior, também são alvo frequente de violência doméstica.”

Não estamos seguras em nenhum lugar nessa merda! E pior: querer conhecer o mundo “sozinha” é provocar o próprio assassinato. Essa é uma ideia absurda que circulou e serviu até de justificativa em vários meios de comunicação no mundo (novidade). Cada vez que tiram a responsabilidade dos agressores eu sinto o quanto poderia ter sido eu. Ser a gente. E como agora eu estaria morta e o mundo continuaria me matando todos os dias como se nada tivesse acontecido. “É pela vida das mulheres.”

A verdade é a que a gente já sabe. Durante todo nosso caminho vamos mesmo encontrar homens “depravados, fortes e assassinos” como sugeriu o imbecil do G1. Em casa ou em qualquer lugar do mundo a violência contra a vida e a liberdade das mulheres é real. Em todas as esferas aliás, seja pública ou privada. Chamamos isso de VIDA.

Mas que sorte a nossa nessa roleta russa. Voltamos como chegamos, juntas.

Entendendo mais do que nunca que a nossa liberdade não será dada. Será conquistada. À ferro e fogo, superando nossos medos, subindo as ladeiras ofegante, batendo em estranho na rua, falando mais alto, xingando mesmo, dando o dedo do meio, fazendo textão, bufando de raiva, afogando as mágoas, conversando horas antes de dormir e resistindo sempre àquela nossa velha e conhecida: vontade de voltar pra casa. Avante, sempre.

IMG_20160307_141843919

 

para Débora, feliz aniversário!