Nossa liberdade não será dada

Viajar sozinha não é uma liberdade garantida das mulheres. Se você é jovem e quer conhecer a América do Sul, por exemplo, pode acabar como as duas mochileiras argentinas no Equador. Em março desse ano elas foram assassinadas por dois homens. Uma morreu com um golpe na cabeça e a outra a facadas depois de uma tentativa de abuso. Nem a companhia de uma amiga pode te safar de um maluco que atravessa a rua e te agarra de madrugada. Ou de outro que mexe com você por causa do tamanho do seu short, do decote, uma tatuagem ou o mindinho do pé.

g1

ATENÇÃO comentário com teor cancerígeno do G1

A morte dessas meninas  – Maria José Coni, de 22 anos, e Marina Menegazzo, de 21 – me deu ainda mais certeza do quanto estamos largadas a nossa própria sorte. A jornalista do El Espectador, Catalina Ruiz Navarro, escreveu na época uma coluna que define bem a nossa situação: “por segurança, as mulheres terminam confinadas aos espaços privados, onde, para horror maior, também são alvo frequente de violência doméstica.”

Não estamos seguras em nenhum lugar nessa merda! E pior: querer conhecer o mundo “sozinha” é provocar o próprio assassinato. Essa é uma ideia absurda que circulou e serviu até de justificativa em vários meios de comunicação no mundo (novidade). Cada vez que tiram a responsabilidade dos agressores eu sinto o quanto poderia ter sido eu. Ser a gente. E como agora eu estaria morta e o mundo continuaria me matando todos os dias como se nada tivesse acontecido. “É pela vida das mulheres.”

A verdade é a que a gente já sabe. Durante todo nosso caminho vamos mesmo encontrar homens “depravados, fortes e assassinos” como sugeriu o imbecil do G1. Em casa ou em qualquer lugar do mundo a violência contra a vida e a liberdade das mulheres é real. Em todas as esferas aliás, seja pública ou privada. Chamamos isso de VIDA.

Mas que sorte a nossa nessa roleta russa. Voltamos como chegamos, juntas.

Entendendo mais do que nunca que a nossa liberdade não será dada. Será conquistada. À ferro e fogo, superando nossos medos, subindo as ladeiras ofegante, batendo em estranho na rua, falando mais alto, xingando mesmo, dando o dedo do meio, fazendo textão, bufando de raiva, afogando as mágoas, conversando horas antes de dormir e resistindo sempre àquela nossa velha e conhecida: vontade de voltar pra casa. Avante, sempre.

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para Débora, feliz aniversário!

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